quinta-feira, 23 de abril de 2009

A Saudade

Que saudade daqueles olhos!
De como me faziam calar,
quando se podia falar.
De como me faziam sussurrar,
quando se podia gritar.
De como me faziam ter forças,
quando meus joelhos já não mais
suportavam o mundo.

Que saudade daqueles olhos!
De como me faziam sorrir,
quando se devia prantear.
De como me faziam inerte a dor,
quando se devia agonizar.
De como me faziam voar,
quando se devia enterrar
os meus sonhos na areia.

Mas eles se foram.
Partiram para onde não posso ir.
Para onde não sou bem-vindo.
Para onde desconheço a multidão.

E agora tento calar,
tento sussurrar,
tento gritar,
tento suportar.

Tento sorrir,
tento ser inerte,
tento voar,
tento me equilibrar.

E vozes, gritos,
prantos, agonias,
enterros e solidão
reinam sobre a paz de outrora.

domingo, 5 de abril de 2009

O MEDO - primeira parte

Carlos Drummond de Andrade

Em verdade temos medo.
Nascemos no escuro.
As existências são poucas;
Carteiro, ditador, soldado.
Nosso destino, incompleto.
E fomos educados para o medo.
Cheiramos flores de medo.
Vestimos panos de medo.
De medo, vermelhos rios
Vadeamos.
Somos apenas uns homens e a natureza traiu-nos.
Há as árvores, as fábricas,
Doenças galopantes, fomes.
Refugiamo-nos no amor,
Este célebre sentimento,
E o amor faltou: chovia,
Ventava, fazia frio em São Paulo.
Fazia frio em São Paulo...
Nevava.
O medo, com sua capa,
Nos dissimula e nos berça.
Fiquei com medo de ti,
Meu companheiro moreno.
De nós, de vós, e de tudo.
Estou com medo da honra.
Assim nos criam burgueses.
Nosso caminho: traçado.
Por que morrer em conjunto?
E se todos nós vivêssemos?
Vem, harmonia do medo,
Vem ó terror das estradas,
Susto na noite, receio
De águas poluídas. Muletas
Do homem só.
Ajudai-nos, lentos poderes do
Láudano.
Até a canção medrosa se parte,
Se transe e cala-se.
Faremos casas de medo,
Duros tijolos de medo,
Medrosos caules, repuxos,
Ruas só de medo, e calma.
E com asas de prudência
Com resplendores covardes,
Atingiremos o cimo
De nossa cauta subida.
O medo com sua física,
Tanto produz: carcereiros,
Edifícios, escritores,
Este poema,
Outras vidas.
Tenhamos o maior pavor.
Os mais velhos compreendem.
O medo cristalizou-os.
Estátuas sábias, adeus.
Adeus: vamos para a frente,
Recuando de olhos acesos.
Nossos filhos tão felizes...
Fiéis herdeiros do medo,
Eles povoam a cidade.
Depois da cidade, o mundo.
Depois do mundo, as estrelas,
Dançando o baile do medo.

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É engraçado como esperamos coisas que julgamos ser o que realmente precisamos e na eminência de tê-las, vemos que são além daquilo que podemos ter. Talvez não porque não suportamos o esperado, mas porque toda ação ou reação nos cobra um preço. E nem sempre estamos dispostos a pagar tal valor. Às vezes, não porque não temos forças suficientes para o débito, mas por estarmos despreparados para renunciar. Às vezes, é porque falta-nos fé - acreditar em algo intenso novamente, e a possibilidade da dolorosa frustração não é algo que seja tão fácil - temos medo.

Todo tipo de medo é resultado intuitivo do risco. Terror por algo desconhecido que pode ou não nos atingir mortalmente. Se você se depara com algo extremamente feio aos olhos, mas se já há a compreensão dos riscos, há a cautela e o medo diminui. A palavra medo logo arremete a palavra dor. Frustração. Um convívio inevitável até que aprendemos a conviver com ele. O nosso melhor amigo, as vezes.


Vem, harmonia do medo,
Vem ó terror das estradas,
Susto na noite, receio
De águas poluídas. Muletas
Do homem só.

"Não tenho medo de nada que possa me envolver,
a não ser que o Medo se apresente a mim em forma de terror."
Edgar Allan Poe (Queda da Casa de Usher)

E medo era a expressão nos olhos do momento, misturado com um suave toque de admiração e curiosidade. Uma estranha sensação de terreno desconhecido fazia com que o som da chuva se tornasse a música adequada para a ocasião. Medo era o motivo da retenção. Medo era o motivo da prisão que mantia dentro do calabouço o forte desejo de entrega. É engraçado como crescemos, amadurecemos, aprendemos tantas coisas como ler, ouvir, observar, refletir - e quando romanticamente deveríamos aprender a viver, o que a maioria das vezes o que realmente acontece é que aprendemos a cultivar a covardia. Quando desejamos ficar livres de pensamentos de outros que nos guiam para aprendermos a nos equilibrar com os próprios pés, finalizando a moldura que nos desenha, somos, então, dominados pelo que muitos chamam de prudência: uma forma de suavizar/mascarar o verdadeiro sentido de sensações que revelam a realidade da palavra medo. E quando precisamos do alimento da alma, que verdadeiramente nutre o espírito, nos contentamos com uma singela massagem no ego, e vivemos um dia após o outro, sem grandes emoções, aguardando enfim, a velhice engessar toda frustração.

E com asas de prudência
Com resplendores covardes,
Atingiremos o cimo
De nossa cauta subida.

...

Os mais velhos compreendem.
O medo cristalizou-os.

Após o momento, uma grande esperança de ter os olhos penetrados veio a tona, mantendo um sentimento inicialmente constante, mas que se revelou totalmente fugaz a medida em que o tempo se tornou parte do contexto, e outras análises foram levadas em consideração, categorizando a essência, fazendo-a secundária, colocando-a em banho de água fria. Que grande tristeza! O medo por certo vencerá! Certo tão certo quanto o tempo, que desconhecemos. (continuando com os paradoxos)

Em conversas e outros tantos devaneios com um amigo pensador, fazíamos um mapa do nosso ciclo social e analisávamos todos os conflitos que nos foram apresentados por grandes amigos e colegas, e colocávamos obviamente os nossos também sob análise para entender um pouco dos muitos questionamentos que temos. Falávamos das experiências de termos trabalhado tanto com pessoas, que raramente errávamos na primeira interpretação de alguém somente ao olhar para ela - na forma como movimentavam as mãos, a firmeza dos pés quando caminhavam, o movimento do pescoço ao conversar e mexer com a cabeça, e também a oscilação da voz ao indagar sobre assuntos subjetivos. Coisas que não julgavam, obviamente, o caráter, mas a individualidade consciente apresentada por cada pessoa na primeira impressão. E nas reflexões, foi interessante lembrar que de todas pessoas que analisávamos procuravam fortes experiências de vida. Todas queriam alguém que pudesse satisfazer todas as suas necessidades, das naturais as afetivas. Da qualificação de companheiros(as) a amantes. E as pessoas geralmente escolhidas para isso eram pessoas que tinham a personalidade firme e que transmitiam segurança. Um mar de medrosos procurando partes quentes do oceano - ambientes criados pelos que conseguem construir o próprio mundo aconchegante do bem-estar, como que se estas pessoas não pudessem ser, por elas mesmas, suficientemente fortes para criarem o próprio mundo. Por outro lado, criadores independentes e doadores de aconchego, tendo também a possibilidade de ficar em suas rochas, muitas vezes saem no frio mundo inferior para tentar encontrar alguém para que eles possam dar o que eles tem de melhor. Necessitam de alguém que os acompanhe. Uma seleção ainda mais difícil. O interessante é que ambas as classificações, depois de uma grande aventura, raramente saem dos seus mundos, ficando ali, apenas sonhando ou satisfazendo-se temporariamente até o momento do estalo: temporário e o vazio não mais satisfazem, e o ego já está rouco de tanto gritar.

Ajudai-nos, lentos poderes do
Láudano.
Até a canção medrosa se parte,
Se transe e cala-se.
Faremos casas de medo,
Duros tijolos de medo,
Medrosos caules, repuxos,
Ruas só de medo, e calma.

Hoje, depois de pensar em tudo isso, é que entendo a palavra láudano no texto de Drummond, pois quem não tem o seu ópio disfarçado. Talvez este seja o motivo do porquê o eu-lírico de Chico Buarque queria vender a sua fazendinha que não tinha preço (Bancarrota Blues). Talvez tenha se cansado de fugir do inevitável, oferecendo este mundo a um outro louco. Hoje, penso que compra-la não seria uma boa não!

Contudo, permanço observando. Permaneço buscando, mesmo que ainda eu seja colocado apenas como espectador - nem salvador, nem resgatado, e tenha que me inspirar a aventurar em outros mundos, saindo do meu quantas vezes for preciso.

E continuamos a viver!

quinta-feira, 26 de março de 2009

Image, smell and moment

There are things that maybe the youngsters may not understand at all
They can carry the magic of frustration or the power of contentment
They contain the portion of pleasure and the dab of magnitude
And the fortunate becomes the magician

They're conquered when observation is an acquired art
When the colors and the image of the markable is never bygone
When the smell of the unseen can say more than the words might try to express
When the moment come alive raising empathy and love

When you look up the sky and see how intense is the blue
Is exactly when life has any sense and
The image, the smell and the moment stay within forever.

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Na tentativa de compreender, já tenho a imagem, tenho o cheiro. Só me falta o momento.

Viva a vida!

sábado, 14 de março de 2009

O Beijo

O Beijo, por Di Cavalcanti

COMO DIZIA O POETA
Vinícius de Morais

Quem já passou
Por esta vida e não viveu
Pode ser mais, mas sabe menos do que eu
Porque a vida só se dá
Pra quem se deu
Pra quem amou, pra quem chorou
Pra quem sofreu, ai

Quem nunca curtiu uma paixão
Nunca vai ter nada, não

Não há mal pior
Do que a descrença
Mesmo o amor que não compensa
É melhor que a solidão

Abre os teus braços, meu irmão, deixa cair
Pra que somar se a gente pode dividir?
Eu francamente já não quero nem saber
De quem não vai porque tem medo de sofrer

Ai de quem não rasga o coração
Esse não vai ter perdão

in Poesia completa e prosa: "Cancioneiro".

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Ai de quem não rasga o coração
Esse não vai ter perdão

Hoje numa conversa direta com uma amiga que gosto tanto, muita coisa foi dita em poucas palavras. "Nós amadurecemos, aprendemos, e quanto mais vivemos, mais ponderamos as coisas!" Palavras que após serem ditas não paravam de incomodar. Era como se fosse um sininho tocando no fundo da cabeça, chegando a incomodar. "Quanto mais vivemos, mais ponderamos as coisas" era a frase que incomodava como uma pedra no sapato. Até que ponto houve perda por ponderação ou por viver intensamente? Ponderar as coisas e viver intensamente são coisas antagônicas? No dicionário da Língua Portuguesa, ponderação implica na seriedade e reflexão das decisões tomadas, dentro deste contexto. Naturalmente, não há antagonismo em nada disso. É muito possível viver intensamente, aproveitando os momentos tendo o equilíbrio e o bom senso de pensar muito bem antes de agir. Mas quando escuta-se a expressão rasgar dita por Vinícius, não se consegue perceber equilíbrio. O que percebe-se é a entrega de corpo e alma. Verdadeiro, sincero e profundo. Da beira do penhasco, saltar de olhos fechados. Ter fé. Coisas que, em muitas vezes, contradizem a maturidade.

Infelizmente, porém, as experiências da vida transformam carne em pedra, fazendo pensar mais de uma vez antes de saltar. As lembranças das emoções de se amar intensamente trazem a tona uma vontade louca de ir e mergulhar. E então ficamos, pensando, como seria se, após toda esta espera, tudo não passasse de poeira ao vento. Tais palavras de Vinícius fazem sentido agora. Tais palavras trazem preenchimento, e isso consiste em uma louca entrega aos braços da paixão de maneira ponderadamente desenfreada e profunda. Amo paradoxos!!! =^)

Mesmo o amor que não compensa
É melhor que a solidão

Vou esperá-la. Aguardar o telefone tocar, e esperar o grande momento de abrir os braços e começar a dividir... de olhos fechados!

sexta-feira, 13 de março de 2009

SOBRE O SOFRIMENTO E A FELICIDADE

"Sabedoria é saber sofrer pelas razões certas. Quem não sofre, quando há razões para isso, está doente. Se uma pessoa querida morre e o coração não sangra, se um golpe duro da vida atinge a quem se ama e os olhos não choram, se uma desgraça cai sobre o povo e a alma não fica triste, se o fogo consome as florestas e o corpo não queima também, é que porque algo está errado com a gente. Quem é feliz sempre, e nunca sofre, padece de uma grave enfermidade e precisa ser tratada a fim de aprender a sofrer. Sofrer pelas razões certas significa que estamos em contato com a realidade, que o corpo e a alma sentem a tristeza das perdas e que existe em nós o poder do AMOR. Só não sofrem, quando para isso há razões, aqueles que perderam a capacidade de amar. Toda experiência de amor traz, encolhida no seu ventre, à espera, a possibilidade de sofrer. Assim, a receita para não sofrer é muito simples: BASTA MATAR O AMOR. Mas que enorme perda se isso acontecesse! Porque é o sofrimento que nos faz pensar. Pensamos ou para encontrar formas de eliminar o sofrimento, quando isso é possível, ou para dar um sentido ao sofrimento, quando ele não pode ser evitado. O pensamento, assim, filho da dor, está a serviço da alegria. Todas as mais belas conquistas do espírito humano, da poesia à ciência, nasceram assim."

(caput ALVES, Rubem. UM MUNDO NUM GRÃO DE AREIA. Ed. Verus, 2002. Páginas 23, 24.)

Quando se acorda pela manhã, o maior desejo de alguém que busca um sentido é ter o que se agarrar para ter um bom dia. Quem sabe seria a experiência da noite passada? Quem sabe seria pensar no bom livro do momento - Mulher de 30 anos, de Honoré de Balzac? Ir para o trabalho de ônibus seria melhor, pois seria rápido, voltaria ao trabalho de forma súbita e pensaria em tudo no período do almoço. Seria mais fácil. Até que um companheiro decidiu caminhar e me convidou para caminhar junto. A negação veio logo a mente, e cheguei a dizer não, até que foi dito que conversaríamos sobre ele. Quando me dei conta, minhas pernas já estavam seguindo o caminho que se tornaria o motivo de eu estar escrevendo este post. Que se tornaria o motivo de minha inquietude. Como gostaria de ter voltado no tempo e não tê-lo acompanhado! Como gostaria de tê-lo acompanhado sabendo o que aconteceria!

Falávamos sobre o universo. Falávamos em inglês para o assunto se tornar mais lento e mais dolorido. Falamos sobre decisões. Descrevemos os furúnculos que nos atormentavam todos os dias. Falamos sobre eles, os Anjos. Até que passávamos perto de onde o anjo costuma descer diariamente. Decidimos contempla-lo. Depois de atravessar os obstáculos que todos os templos possuem para que haja um pouco de sacrifício para tal privilégio, após observar uma mulher de olhos frios levando as pessoas na transição dos mundos - Caronte moderna, que já não mais exigia óbolos. Meu coração palpitava e finalmente, depois de semanas (era o que realmente parecia), eu veria o Brilho novamente. Veria os Olhos. Mas o momento da evocação não era o certo. Havíamos chegado cedo demais. Pensei no momento que aquela possibilidade faria do meu dia um mar de ilusões e pensamentos maravilhosos e sentia pena de que tal oportunidade fosse perdida. Atravessamos de volta pelo Aqueronte e voltamos ao mundo, onde faríamos o que havíamos de fazer. Voltaríamos a falar de dores e de trabalho. Voltaríamos até que a regra foi quebrada e o universo trouxe o clímax já no início da história - catárse quase assassina. O Anjo apareceu. O seu sorriso era lindo. Seus cabelos eram dourados e refletiam as lembranças do primeiro encontro. Seus olhos aqui não serão descritos (deles ainda desconheço as palavras). O Anjo, se soubesse que meu coração quase saia pela boca não teria feito o que fez, mas felizmente o fez, pegou nos meus braços, após um abraço que fez dos meus joelhos meros objetos sem vida. Fomos agraciados em sermos convidados a entrar novamente no seu local de veneração onde a descrição de importância e imponência fez até mesmo do Barqueiro algo imperceptível. Entramos. Ficamos. Conversamos. Eu, apenas, contemplava. Até que após alguns segundos tivemos de sair. Após todas as respectivas ações de respeito e afeto, e após sentir todo aquele perfume que sinto até este momento, e olhar toda aquela luz, tivemos que voltar novamente ao mundo real.

Após voltarmos a nossa caminhada, percebi que a Luz vicia. A Luz é sempre tão excelente, e tão impositiva de responsabilidades, que a saudade dEla já doía minutos depois do recomeço da caminhada, e então percebi que tive um privilégio tão grande, que meu dia acabou logo pela manhã. E quando cheguei no escritório, compreendi o que Rubem Alves disse na leitura que fiz deste livro há, sei lá, talvez uns 2 anos: "Toda experiência de amor traz, encolhida no seu ventre, à espera, a possibilidade de sofrer. Assim, a receita para não sofrer é muito simples: BASTA MATAR O AMOR."

quinta-feira, 12 de março de 2009

A dor de crescer

ME,
YOU
NOW
HERE
BOTH
GATHERED
AND
FOREVER
SIMPLY FOREVER.
(Outubro de 2005)


Nas devagações e percepções do mundo a minha volta, algumas coisas ainda me intrigam. Como o fato de quanto mais o tempo passa, mais me desespero em compreender que o que as pessoas dizem, não querem dizer nada... e quando não se diz algo, é que descobrimos, depois de muita observação, as coisas como elas realmente são. Quando percebi isso, comecei a me calar. Ouvir mais. Péssima decisão. Quão maravilhosa é a ignorância da vida! Comecei a ver as pessoas como elas são. Comecei a notar o que há de mais ruim nas pessoas, mesmo quando percebendo também as boas qualidades. No meu momento pessimista, as coisas boas talvez não são tão relevantes. Quanto à percepção do bem, estou meio difuso, por enquanto.

Foi então que um processo muito interessante ocorreu. Parei de observar as pessoas, somente. Comecei a me observar. Um dia acordo de manhã. Quarta-feira (11) acordo com uma nostalgia que a vontade era de fechar a janela e a porta do quarto, ficar no mais total escuro e ficar ali, quietinho. A dor aguda no peito - a mesma dor que sentimos quando perdemos alguém muito importante, ou quando sentimos uma mágoa muito profunda. Uma dor de falta, de saudade, de tristeza, de morte. Como poderia aquilo acontecer do nada às 5:52 da manhã? Havia tanto a se fazer, tanto trabalho, mas a dor era tão intensa que quando percebi, saiam lágrimas de meus olhos. Senti meu rosto húmido e as gotas deslizarem rumo às minhas orelhas... o friozinho da sensação das lágrimas e a dor faziam meu cérebro pensar que eram gotas de sangue escorrendo de uma ferida feita no meio da noite pelo demônio que acordou dentro de mim, querendo colocar as suas garras para fora do meu peito. Após cerca de 40 minutos, eu comecei a sentir uma saudade muito grande. E lembrei-me desta poesia acima que fiz há 4 anos. Ao encontrá-la, percebi que sentia a dor da compreensão, singela, mortífera que me fez, pela primeira vez, discordar da minha querida vovó que tanto me ensinou: não vovó, o que mata as pessoas não é o tempo e nem a tristeza. É a maturidade!

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Os Ombros Suportam O Mundo

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.

Tempo de absoluta depuração.

Tempo em que não se diz mais: meu amor.

Porque o amor resultou inútil.

E os olhos não choram.

E as mãos tecem apenas o rude trabalho.

E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.

Ficaste sozinho, a luz apagou-se,

mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.

És todo certeza, já não sabes sofrer.

E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha velhice, que é a velhice?

Teus ombros suportam o mundo

e ele não pesa mais que a mão de uma criança.

As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios

provam apenas que a vida prossegue

e nem todos se libertaram ainda.

Alguns, achando bárbaro o espetáculo,

prefeririam (os delicados) morrer.

Chegou um tempo em que não adianta morrer.

Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.

A vida apenas, sem mistificação.

Carlos Drummond de Andrade